sexta-feira, 11 de maio de 2012

A luta de Nuno.....


Música a acompanhar o conto: Adele

Mais uma noite e ouviu de novo o bater da porta muito devagarinho, sentiu um vazio no estômago, uma dor e uma angustia que o deixava acordado várias horas à espera que ela voltasse. No dia seguinte de manhã ela acordava-o cheio de mimos e carinhos e apesar de sentir uma enorme vontade de lhe perguntar: "Onde foste ontem mãe?" Ele sabia que não o devia fazer, porque ela estava tão triste quanto ele. Ela com sentimento de culpa e ele com a agonia da solidão que tinha sentido e sabia que não podia contar a ninguém, porque apesar da solidão noturna que sentia quase todos os dias, nada como estar próximo de sua mãe! Para o bem e para o mal foi aquela que o destino lhe deu e não havia lar ou instituição que substituísse aquele sorriso de sua mãe.....Todos os dias ficava com a sua irmã mais nova e sabia que a sua mãe ia fazer aquilo que ninguém se orgulha de fazer, mas que era a única forma de ganhar algum dinheiro pois o rendimento mínimo que lhe tinha sido atribuído não chegava nem para pagar a renda da casa, quanto mais a alimentação das suas crias e as contas de casa.

Nuno sofria pela mãe e pela irmã que parece que pressentia a ausência da mãe já que mal ela saia, acordava e chorava, ele deitava-se ao seu lado e assim passavam noites e noites seguidas, agarrados à espera que a mãe voltasse.....normalmente ela voltava de madrugada, antes da hora de levantar! Nuno sabia porque ela andava sempre com os olhos lacrimosos, sabia que era de sentimento de culpa e de revolta, ele no fundo também sabia que ela era maltratada na rua por homens indispostos, frustrados que só por terem dinheiro achavam que podiam fazer do corpo de sua mãe o que bem entendessem....


Todos os dias de manhã quando se olhava ao espelho e apesar de só conseguir pensar com um pacote de batatas fritas na mão, doces ou gomas, jurava a si mesmo que um dia ia ajudar a sua mãe e ser um homem crescido e assim ela não precisaria de chegar todos os dias com aquele homem todo tatuado que lhe dava algumas notas dentro daquele carro encarnado e ainda lhe puxava o cabelo antes dela sair do carro......que revolta ele sentia, mas nada podia fazer, podia ser pior ainda se o descobrissem.

Como se não bastasse sempre que chegava à escola era a mesma coisa, era o "Pobre" o "Gordo" e o "Feio"; nem sabia o que era ter um amigo, nem podia desabafar com ninguém aquilo que o atormentava, até a professora o chateava porque era raro fazer os trabalhos. Se ela soubesse o que ele sentia, percebia porque é que não tinha nem vontade nem paciência de os fazer......só queria que a vida mudasse e de preferência pudesse ajudar a sua mãe....

"Que cara tão doce e serena tem aquele fulano moreno, não achas Helena?" - Perguntava Sofia à sua amiga. Sofia que já o tinha observado desde o inicio da apresentação, achava-o diferente, muito atraente, seguro e com uma maneira inteligente de expor as suas ideias, afinal o tema não era para qualquer um " Como sobreviver em caso de violência doméstica" a forma doce como ele falava das mulheres era algo de especial, contagiante e atrativo. No final da conferência, aproximou-se do responsável pela organização e pediu para ser apresentada ao orador, ao Dr. Nuno Dias!

Tinham passado trinta anos e Nuno cumpriu aquilo que disse ao espelho durante muitos e longos anos, seria um homem que com certeza orgulharia a sua mãe, caso fosse viva, pois morreu era ele adolescente muito doente, nunca soube bem com que doença.....mas hoje sabe-o muito bem, pois é médico, e tenta ajudar mulheres a lutarem e saberem como se defender num período difícil de sua vida. E já que não o pode fazer por sua mãe, tenta fazê-lo por outras mulheres e assim sente que tem sempre presente o espirito e o cheiro de sua mãe........



FIM

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