A melhor musica para ouvir este conto, é sem duvida : Pablo Alboran e Carminho
Sentada numa cadeira de baloiço na sua varanda com uma chávena de chá numa mão com um aroma de ervas muito envolvente e as lágrimas descendo pela face, sentia a noite a despedir-se e esperava pelo sol que deveria aparecer a qualquer momento. Maria fazia o balanço da sua vida e sofria pela noticia que tinha recebido à umas horas atrás, noticia essa que lhe trouxe um sentimento de revolta, tristeza, impotência e frustração e lá no fundo sabia que muito ficou por viver .........e o pior é que ficaria sempre por saber como seria se tivesse sido de outra forma……..
Maria era uma mulher decidida, com uma garra muito forte daquelas de nunca baixar os braços, digamos que uma mulher deste século, inteligente, bonita, multifacetada e obviamente muito invejada por outras da sua espécie.....durante anos e anos dedicou-se a um casamento e aos filhos, a pagar as suas contas, a sonhar por uma vida melhor. Nunca foi de grandes romantismos, era uma mulher prática sempre muito vocacionada para o trabalho, que durante muitos anos o considerou como um escape para as suas mágoas, tristezas e obviamente alegrias......mas parece que era o que sabia fazer melhor e sabia que o fazia muito bem, raramente perdia um julgamento e não tinha medo de nada, parece que se vingava ali nas barras dum tribunal da vida que tinha dentro de casa....
Foi casada quase 20 anos com um homem que julgou ser o homem de sua vida, afinal foi o pai dos seus filhos, foi muito amada e também amou, mas a dureza duma relação no dia a dia , a desmotivação, o desgaste físico e psíquico, os problemas existentes do dia a dia, a educação dos filhos desgastaram esta relação que mais parecia uma obrigação e fez com que Maria fosse à luta sozinha por mais emoção e alegria, senão com certeza envelheceria mais cedo e sentiria que mais parecia um "robot" de obrigações do que uma mulher com sentimentos e com força para viver como sempre o fizera.........passado pouco tempo de ter terminado a sua relação conheceu alguém, que não correspondia a um padrão normal masculino que ela tinha conhecido até então, mas que a completava total e absolutamente, quer fisicamente quer psicologicamente, era um homem que lhe fazia frente que a fazia ter emoções, ora chorava ora ria, mas sentia-se amada com o fogo duma paixão.......afinal ela era a prova viva que o amor ou paixão não escolhe, acontece e nós não escolhemos! Era um sentimento que mexia tanto com ela que por vezes sentia vergonha de si própria por ter tamanhos sentimentos, mas eram sentimentos saudáveis, que a faziam rir, sentir-se ainda com mais força para o seu dia-a-dia ao mesmo tempo parecia doentio, amavam estar juntos, parecia que só se sentiam bem juntos! Que amor louco aquele que os completava.........ele era a energia e o fogo por ela desejado durante anos e anos e porque só apareceu agora? Logo agora que lidava com a adolescência dos seus filhos e que eles não aceitavam de forma nenhuma aquele relacionamento, aliás parece que do amor louco que nutriam por ela desde sempre, de repente pareciam odiá-la e se uma das coisas que mais gostava era de estar no seu lar, neste momento não tinha sitio onde se sentisse bem!
Se estava com aquela que era a sua paixão ou amor, já nem sabia como o definir, era simplesmente o calor e o alimento da sua alma; sentia um peso enorme de consciência por não estar com os filhos, se estava com os filhos e apesar de os amar indefinidamente de dar o melhor e tudo de si, sentia que lhe faltava algo para a completar e sabia que a sua paixão não ia esperar por ela eternamente.
Maria sabia que tinha o direito de amar alguém, de se sentir mulher, mas a sua família não aprovava e ela sofria muito mas em silêncio, chorava dias e dias seguidos pela luta interior de sentimentos e sabia que algo aconteceria em breve, só não sabia quando..........foram largos meses desta mistura de angustia, paixão e tristeza!! Até que um dia decidiu terminar com esta relação que a completava, em prol do bem estar com os seus filhos.........mas foi um engano e hoje sabia-o, naquela cadeira de baloiço, passados cinco anos......essa paixão nunca foi esquecida......
Nesses anos de solidão os seus filhos cresceram e seguiram a sua vida, a filha mais velha uma estudante de sucesso, praticamente formada, de comportamento frio e exigente com a mãe, afinal nunca lhe perdoou ela ter dormido com outro homem que não o seu pai.........vivia com o seu namorado, saia quando queria e fazia o que queria, nem sequer obedecia a ninguém, queria era viver a sua vida, ás vezes parece que nem via o que a mãe sofria! O filho mais novo e igualmente exigente queria era estar com os seus amigos, era um adolescente como qualquer outro, independente e achava que tinha sempre razão........ninguém tinha tempo para falar com Maria! Os filhos entravam e saiam e ela simplesmente fazia a comida servia os filhos o melhor possível e os amigos deles e esperava que eles crescessem, nem um "Obrigada" ouvia deles, sentia-se completamente uma criada........e questionava-se: "Será que eu não os soube educar?" ; "Porque é que me julgam?"; "Porque será que são tão exigentes comigo, quando eu apenas queria ser feliz, ser mulher?"; "Porque é que eu tenho que aceitar as suas opções e eles nunca aceitaram as minhas?"; “Porque é que eu respeito as suas opções e estou sempre aberta ao diálogo e eles nem me perguntam se estou bem?”
Hoje olhava para os anos de solidão que passou e estava triste, velha, enrugada e sozinha , mas julgou e lutou muito por ter mantido aquela sua decisão de dedicação e agrado a seus filhos! Afinal que direito tinha ela de amar sem ser o pai deles?? É que eles pensavam desta forma...........qualquer que fosse a opção de Maria por uma independência e nível de companheirismo masculino, ela sabia que jamais seria aprovado pelos seus filhos.
No fundo ela tinha consciência que devia ter exigido respeito a seus filhos, afinal dedicou-se a eles a vida toda e parece que agora ninguém se preocupa com ela, nem compreendem a solidão que lhe corrói a alma nestes últimos anos de solidão.......perdeu o gosto por se arranjar, perdeu a concentração e força no trabalho que tinha anteriormente e deixava simplesmente os dias passarem, limitava-se a ganhar dinheiro para sustentar a educação de seus filhos e os gastos básicos de casa........de novo sentia-se um "robot" como já se sentiu noutros tempos do seu passado.......neste momento sentia que não há filhos nem famílias que justifiquem tanto sofrimento, afinal a noticia tinha chegado e a paixão de sua vida, tinha falecido no dia anterior e ela no fundo sabia que o desgosto por ele sofrido pelo rompimento daquela relação e a solidão por ele sentida, tinha rebentado com a sua saúde, que nunca tinha sido muito forte e ele tinha falecido num hospital da capital....... e Maria nem tinha conseguido tempo para se despedir de alguém que a fez sentir-se muito amada nos seus quarenta anos........restava-lhe agora chorar até se consolar e dizer "Perdoa-me meu amor por não ter vivido contigo e não ter tido força suficiente, para te amar e acompanhar a ti e aos meus filhos".............
FIM
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