Tenho um amigo, muito querido que muito estimo e considero que escreveu este texto, que quero partilhar aqui porque além de ser lindo, está super bem-escrito e acaba por ser uma homenagem ao meu amigo muito especial que muito contribuiu para que este blog existisse:
"Quando nos morre um avô ficamos sem passado. Por momentos é a infância que se vai. Os bibes. As birras. A meiguice daquela mão grande que... nos agarrava para atravessar a estrada. Quando nos morre um avô os bancos de jardim ficam vazios e não temos mais quem nos empurre o baloiço. Só mais uma vez. Só mais uma vez. Quando nos morre um avô fica um buraco de quilómetros até à província. Nunca mais chegamos. Nunca mais chegamos. Quando nos morre um avô deixamos de lamber os dedos depois do gelado de três sabores nos calções do verão. O avô à conversa com os amigos. A limpar as feridas quando se cai de bicicleta. Quando nos morre um avô ficam só as feridas. O avô dos cabelos brancos a fazer-nos festas longas nos cabelos. Estás tão crescido. Um homenzinho. Quando nos morre um avô é o frio das primeiras vezes dos velórios. A gravatinha preta. Os abraços dos desconhecidos. Era tão boa pessoa. A mãe atazanada. Quando nos morre o avô as flores deixam de ser belas. As flores são um amontoado de pétalas que não contam nada. O cheiro da morte do avô é o fim da infância. A bicicleta encostada no canto da garagem. As costas na parede com os braços a agarrar os joelhos e a cabeça escondida. Não quero falar com ninguém. Quando nos morre um avô é a certeza da vida que se faz história sem se saber bem para quê. O baloiço. Os primeiros passos. As fotografias na sala ao colo. Os óculos grandes do avô. A cara grande do avô. Quando nos morre um avô o mundo desaparece e estamos sós até não conseguirmos mais. O banho na praia ao colo do avô. Os braços fortes. A gargalhada. Quando nos morre um avô ficamos sem braços. Ficamos nas ondas a engolir um mar todo. E sai-nos pelos olhos esse sal em catadupas que não se esgotam. Quando nos morre um avô é uma saudade de nós pequeninos que se crava na pele. É uma saudade que não se explica porque é uma coisa cá de dentro. Um bocado de nós essa saudade. Quando nos morre um avô o apelido que nos liga ao tempo apaga-se e ficamos sem nome. Quando nos morre um avô passamos a ser só nós. Até sermos nós o avô. Um dia. São três bolas de gelado. E um passeio de mão dada. Mão pequenina. Com um outro miúdo que é sem dúvida o melhor miúdo do mundo."
Obrigada meu querido amigo...Eduardo Pinheiro!!
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