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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Casa do Lago Pilgrim - I


Eram 5 horas da manhã e lá estava ele à espera que o tempo passasse para ver se conseguia ver de novo aquilo que lhe despertava atenção à dois dias seguidos e não conseguia perceber muito bem o que era, mas a mistura do receio com a curiosidade nem o deixavam pensar. Normalmente aquele lago era tão calmo, não se ouvia nada. O que seria que se passava à duas noites para cá com tamanha agitação dentro de água....quase que jurava ouvir rir! Mas era impossível, afinal Jeremy estava sozinho na caso do lago do seu tio a 5 km do National Seashore em Orleans. Todos os anos Jeremy pedia ao seu tio a casa do lago e passava lá pelo menos duas semanas em absoluto sossego, afinal durante o ano o seu curso de medicina não lhe deixava muito espaço para não fazer nada! E quando vinha para esta casa ele sabia que não tinha horários para nada, comia quando lhe apetecia, não tinha que falar com ninguém.........e só dormia quando sentia sono. O normal era nos primeiros dois ou três dias passar o tempo todo a dormir, parece que recuperava as noites perdidas de estudo para os exames finais do seu curso. Ali é que fazia a sua chamada cura de sono!

Mas estas férias estavam diferentes, desde a sua chegada, que não havia luz por causa duma avaria ali próximo, e já estava à três dias à luz de velas. Não podia cozinhar no micro-ondas, mas podia pescar e grelhar um peixinho do lago. Jeremy já estava farto de peixe do lago grelhado, e nessa noite resolveu levantar mais cedo e caçar......de facto eram 5 horas da manhã e foi mais fácil do que pensava agarrar um pobre coelho que estava tão calmamente distraído a roer umas pequenas raízes e a ver o luar no lago, devia estar habituado também ao sossego!

Depois da caça, Jeremy riu e pensou que mais parecia um homem de cavernas em vez dum homem de cidade e pensou que dada a ausência de luz teria que ir mais cedo para casa, não havia previsão de nada, afinal aquilo era o fim do mundo do descanso!! De repente ouviu parecia um riso, mas achou que estava a alucinar e continuou a andar normalmente, mas o riso teimou em ser ouvido.....Jeremy olhou para o lago e percebeu que alguém estava a tomar banho!! Estranhou, porque a casa mais próxima fica a mais de 5 km da do seu tio.....mas observou de novo e viu alguém a tomar banho a uma grande velocidade e extremamente ágil nas águas do lago. Não tirou conclusão nenhuma, tinha alguma distância e foi até ao alpendre da casa, observou e deixou de ver e ouvir o que quer que fosse...........pensou: "Estou mesmo a alucinar"........adormeceu!! Acordou no dia seguinte a meio da manhã e não conseguiu parar de pensar no riso que tinha ouvido de noite e resolveu acordar nessa mesma noite ás 5 horas da manhã para tentar perceber o que se passava.......

De facto tinha que tomar uma atitude e resolveu agarrar no velho barco do tio e deslocar-se pelo lago onde brilhava um lindo luar da lua cheia! Aproximou-se e viu uma cabeleira loura cintilante a tomar banho que ria imenso e brincava com os peixes do lago, afinal parece que todos a conheciam. Jeremy achou que estava doente, porque viu a mulher mais bonita que alguma vez tinha visto na sua vida, loura com os olhos muito verdes muito cintilantes, com um sorriso fantástico, duma doçura fora do normal da maioria das mulheres, porque parecia doce e pura como uma criança, mas com um lindo e belo corpo de mulher........aproximou-se e perguntou-lhe "quem és tu?" e ela responde de dentro de água "Sou a Cindy e tu és o Jeremy" .......... Jeremy achou que estava no Céu afinal ele nunca ligou muito a mulheres, achava que elas só davam dores de cabeça por serem inseguras, aborrecidas, insistentes e isso não justificava um relacionamento para dar satisfações da sua vida privada........mas aquela era diferente!

Ela afastou-se a uma velocidade que dava para Jeremy se questionar quem é que nada aquela velocidade e desapareceu ela e os peixes...............ficou de novo o silêncio! Jeremy mais achava que tinha delirado, voltou a terra! No dia seguinte fez o mesmo e voltou a estar com Cindy e nos dias seguintes, só nunca percebia porque é que de repente quando o sol nascia a Cindy nadava a uma velocidade pouco normal com os outros peixes e desaparecia!

Jeremy já se encontrava com Cindy à 5 noites seguidas, divertiam-se, riam-se, a cumplicidade era casa vez maior, ela falava de assuntos pouco complicados e ele do seu curso e da sua vida, mas ela é diferente, fazia-o rir. Só que desaparece de repente e nada depressa demais. Afinal quem é a Cindy?

Jeremy na sexta noite de convívio, no lago, afinal ele já dormia de dia e encontrava-se com ela de noite, resolve perguntar-lhe porque foge ela de manhã antes do sol nascer .......... e ela com aquela voz tímida e olhos cintilantes, parecia estar sempre maquilhada com umas sardas muito bonitas,  confessa-lhe: "Sou uma Sereia"...........

terça-feira, 22 de maio de 2012

A vida depois dos quarenta de Maria......


A melhor musica para ouvir este conto, é sem duvida : Pablo Alboran e Carminho
 
Sentada numa cadeira de baloiço na sua varanda com uma chávena de chá numa mão com um aroma de ervas muito envolvente e as lágrimas descendo pela face, sentia a noite a despedir-se e esperava pelo sol que deveria aparecer a qualquer momento. Maria fazia o balanço da sua vida e sofria pela noticia que tinha recebido à umas horas atrás, noticia essa que lhe trouxe um sentimento de revolta, tristeza, impotência e frustração e lá no fundo sabia que muito ficou por viver .........e o pior é que ficaria sempre por saber como seria se tivesse sido de outra forma……..

Maria era uma mulher decidida, com uma garra muito forte daquelas de nunca baixar os braços, digamos que uma mulher deste século, inteligente, bonita, multifacetada e obviamente muito invejada por outras da sua espécie.....durante anos e anos dedicou-se a um casamento e aos filhos, a pagar as suas contas, a sonhar por uma vida melhor. Nunca foi de grandes romantismos, era uma mulher prática sempre muito vocacionada para o trabalho, que durante muitos anos o considerou como um escape para as suas mágoas, tristezas e obviamente alegrias......mas parece que era o que sabia fazer melhor e sabia que o fazia muito bem, raramente perdia um julgamento e não tinha medo de nada, parece que se vingava ali nas barras dum tribunal da vida que tinha dentro de casa....

Foi casada quase 20 anos com um homem que julgou ser o homem de sua vida, afinal foi o pai dos seus filhos, foi muito amada e também amou, mas a dureza duma relação no dia a dia , a desmotivação, o desgaste físico e psíquico, os problemas existentes do dia a dia, a educação dos filhos desgastaram esta relação que mais parecia uma obrigação e fez com que Maria fosse à luta sozinha por mais emoção e alegria, senão com certeza envelheceria mais cedo e sentiria que mais parecia um "robot" de obrigações do que uma mulher com sentimentos e com força para viver como sempre o fizera.........passado pouco tempo de ter terminado a sua relação conheceu alguém, que não correspondia a um padrão normal masculino que ela tinha conhecido até então, mas que a completava total e absolutamente, quer fisicamente quer psicologicamente, era um homem que lhe fazia frente que a fazia ter emoções, ora chorava ora ria, mas sentia-se amada com o fogo duma paixão.......afinal ela era a prova viva que o amor ou paixão não escolhe, acontece e nós não escolhemos! Era um sentimento que mexia tanto com ela que por vezes sentia vergonha de si própria por ter tamanhos sentimentos, mas eram sentimentos saudáveis, que a faziam rir, sentir-se ainda com mais força para o seu dia-a-dia ao mesmo tempo parecia doentio, amavam estar juntos, parecia que só se sentiam bem juntos! Que amor louco aquele que os completava.........ele era a energia e o fogo por ela desejado durante anos e anos e porque só apareceu agora? Logo agora que lidava com a adolescência dos seus filhos e que eles não aceitavam de forma nenhuma aquele relacionamento, aliás parece que do amor louco que nutriam por ela desde sempre, de repente pareciam odiá-la e se uma das coisas que mais gostava era de estar no seu lar, neste momento não tinha sitio onde se sentisse bem!

Se estava com aquela que era a sua paixão ou amor, já nem sabia como o definir, era simplesmente o calor e o alimento da sua alma; sentia um peso enorme de consciência por não estar com os filhos, se estava com os filhos e apesar de os amar indefinidamente de dar o melhor e tudo de si, sentia que lhe faltava algo para a completar e sabia que a sua paixão não ia esperar por ela eternamente.

Maria sabia que tinha o direito de amar alguém, de se sentir mulher, mas a sua família não aprovava e ela sofria muito mas em silêncio, chorava dias e dias seguidos pela luta interior de sentimentos e sabia que algo aconteceria em breve, só não sabia quando..........foram largos meses desta mistura de angustia, paixão e tristeza!! Até que um dia decidiu terminar com esta relação que a completava, em prol do bem estar com os seus filhos.........mas foi um engano e hoje sabia-o, naquela cadeira de baloiço, passados cinco anos......essa paixão nunca foi esquecida......

Nesses anos de solidão os seus filhos cresceram e seguiram a sua vida, a filha mais velha uma estudante de sucesso, praticamente formada, de comportamento frio e exigente com a mãe, afinal nunca lhe perdoou ela ter dormido com outro homem que não o seu pai.........vivia com o seu namorado, saia quando queria e fazia o que queria, nem sequer obedecia a ninguém, queria era viver a sua vida, ás vezes parece que nem via o que a mãe sofria! O filho mais novo e igualmente exigente queria era estar com os seus amigos, era um adolescente como qualquer outro, independente e achava que tinha sempre razão........ninguém tinha tempo para falar com Maria! Os filhos entravam e saiam e ela simplesmente fazia a comida servia os filhos o melhor possível e os amigos deles e esperava que eles crescessem, nem um "Obrigada" ouvia deles, sentia-se completamente uma criada........e questionava-se: "Será que eu não os soube educar?" ; "Porque é que me julgam?"; "Porque será que são tão exigentes comigo, quando eu apenas queria ser feliz, ser mulher?"; "Porque é que eu tenho que aceitar as suas opções e eles nunca aceitaram as minhas?"; “Porque é que eu respeito as suas opções e estou sempre aberta ao diálogo e eles nem me perguntam se estou bem?”

Hoje olhava para os anos de solidão que passou e estava triste, velha, enrugada e sozinha , mas julgou e lutou muito por ter mantido aquela sua decisão de dedicação e agrado a seus filhos! Afinal que direito tinha ela de amar sem ser o pai deles?? É que eles pensavam desta forma...........qualquer que fosse a opção de Maria por uma independência e nível de companheirismo masculino, ela sabia que jamais seria aprovado pelos seus filhos.

No fundo ela tinha consciência que devia ter exigido respeito a seus filhos, afinal dedicou-se a eles a vida toda e parece que agora ninguém se preocupa com ela, nem compreendem a solidão que lhe corrói a alma nestes últimos anos de solidão.......perdeu o gosto por se arranjar, perdeu a concentração e força no trabalho que tinha anteriormente e deixava simplesmente os dias passarem, limitava-se a ganhar dinheiro para sustentar a educação de seus filhos e os gastos básicos de casa........de novo sentia-se um "robot" como já se sentiu noutros tempos do seu passado.......neste momento sentia que não há filhos nem famílias que justifiquem tanto sofrimento, afinal a noticia tinha chegado e a paixão de sua vida, tinha falecido no dia anterior e ela no fundo sabia que o desgosto por ele sofrido pelo rompimento daquela relação e a solidão por ele sentida, tinha rebentado com a sua saúde, que nunca tinha sido muito forte e ele tinha falecido num hospital da capital....... e Maria nem tinha conseguido tempo para se despedir de alguém que a fez sentir-se muito amada nos seus quarenta anos........restava-lhe agora chorar até se consolar e dizer "Perdoa-me meu amor por não ter vivido contigo e não ter tido força suficiente, para te amar e acompanhar a ti e aos meus filhos".............

FIM










segunda-feira, 21 de maio de 2012

Lucrécia embrulhada nas suas memórias......


Musica do dia: Lisa Stansfield

Aquele aperto chegava de novo e não sabia como lidar com ele, o médico já lhe tinha dito para não se preocupar que estava medicada e só precisaria de descanso e de companhia. Mas a companhia era algo que ela só conhecia através do seu "Tareco" e da sua companheira "Chica", os dois gatos europeus comuns, que enchiam a sua casa. Não havia familiar que a procurasse à anos, nem sabia se ainda tinha família, porque essa história dos telemóveis não era com ela, as suas cataratas e os seus oitenta e dois anos já não permitiam perceber como contactar a não ser com aqueles telefones que tocam bem alto e estão agarrados a parede, mas passavam-se dias ou talvez semanas que ele não tocava a não ser algum vendedor para dizer umas coisas esquisitas que ela não fazia ideia do que falavam aqueles malandros....

Gostava de se sentar na sua cadeira debaixo do alpendre da entrada a ouvir os passarinhos do exterior, com o Tareco e a Chica ao seu colo, Lucrécia achava que qualquer dia se esquecia do que era falar, porque só o fazia uma vez por semana quando as auxiliares dos serviços da autarquia lá passavam e deixavam alguns bens para ela cozinhar. Uma coisa ela tinha a certeza, não seria capa dum qualquer jornal morta à meses ou anos sem ninguém saber dela, afinal tinha a visita da autarquia..........Estava sol e aquecia os seus pés e o seu espirito viajou, "Estava uma sala cheia de povo que gritava pelo seu nome, como se de uma Deusa se tratasse, toda ela eram brilhantes cintilantes, homens que lhe pegavam ao colo e ela cantava e representava algo que infelizmente não conseguiu representar no seu país por causa da censura, era tão feliz......vivia duma forma muito criticada pela família, mas conhecia pessoas tão importantes como Charles Trenet, Charles Aznavour, Lire Renauou, Roger Pierre e Jean-Marc Thibault,... entre tantos outros. Até o próprio Elvis Presley, ela teve o privilégio de conhecer porque ele sempre que vinha a Paris não dispensava uma ida ao "Moulin Rouge". Ela namorou, fumou, conheceu homens lindos, inteligentes, ricos, sonhou e viveu tudo o que tinha direito, tudo aquilo que a família não aprovava na altura" .

Seu pai era um militar na altura extremamente ditador que achava que ela tinha que casar com alguém da sua terra e apenas aprender a ler e a cozinhar, porque mulher era mesmo para ter filhos, dar prazer ao homem sempre que solicitada e criar os filhos que Deus lhe quisesse dar...........as suas irmãs viveram dessa forma, mas Lucrécia a 2ª de 5 filhas era diferente, sonhava com algo que nunca tinha visto, apenas as peças de teatro da sua terra feitas por amadores, até que um dia a sua vida mudou e ela apaixonou-se por um homem francês que veio a Portugal visitar a sua família, numa aldeia próximo da sua, mas sendo ele homem e não rapazinho como o pai lhe tinha ordenado, não teve outro remedio senão fugir com ele para França, o problema é que ele já era casado, apesar de muito bem relacionado no meio politico e muito apaixonado por ela. Lucrécia chegou a Paris sem conhecer a língua, fugida da família, sabia que não podia voltar a Portugal e o homem pelo qual ela já se tinha entregue totalmente nos seus braços, prometeu que não a ia abandonar e colocou-a no “Moulin Rouge” como empregada de limpeza; afinal ele até conhecia o encarregado do bar e não foi nada complicado. Também não foi difícil para Lucrécia, que era muito atrevida e comunicativa, com os seus olhos verdes, sardas e cabelo alaranjado, começar a brilhar no meio das outras e numa noite que faltou uma das bailarinas, colocaram Lucrécia para substituir............ela que sabia tudo de cor, porque passava o tempo a observar os ensaios, aproveitou essa oportunidade e tornou-se uma das atrações principais do “Moulin Rouge”!!

Os anos passaram, nunca foi de pensar muito em dinheiro, viveu, aproveitou e entregou-se a tudo o que lhe dava prazer só nunca pensou foi que as rugas iam aparecer e outras divas a substituiriam, e teve que voltar! Não suportava ficar em Paris e ver a sua decadência com a idade..........voltou ás suas raízes, mas nunca mais procurou a sua família, nem conhecia mais ninguém, nem queria, tinha pena de não ter tido filhos, ou de não ter tido coragem para procurar um primo ou um sobrinho, mas nunca teve essa coragem e nunca ninguém soube a Diva que ali estava atualmente, muito menos a autarquia!

"D.Lucrécia....D.Lucrécia, chegou a sua encomenda para a próxima semana"...... mas Lucrécia não voltou a acordar, adormeceu na sua cadeira de baloiço numa manhã cheia de sol com as suas lindas memórias sobre a sua vida e ali ficou entregue aos anjos que a levaram para outro mundo onde ela pudesse sorrir de novo e entregar-se aquilo que ela gostaria, ao convívio e alegria.........

terça-feira, 15 de maio de 2012

Mário numa nova etapa de vida......

Musica do dia, para acompanhar este amor: Meat Loaf

"Não te conheço nem sei o que fazes na minha casa.....porque estás aqui? Quem és tu?" Minha querida Belinha não fiques assim que eu gosto muito de ti e não sei o que fazia à minha vida sem ti, por favor não me fales assim"!! Este é o cenário diário que Mário ouvia a todo o momento.........passados 15 minutos: "Mário porque ainda não tomamos o pequeno almoço?"........."Belinha, minha querida vamos hoje tomar na varanda, queres? " E aproveitou aqueles minutos para lhe dar um miminho e uma flor que já tinha preparado, uma rosa muito vermelha, as suas preferidas.....

Joana dizia todos os dias a seu pai que ele não ia aguentar aquela tristeza diária de todos os dias ser maltratado e mal amado, mas Mário era um homem forte e acreditava acima de tudo nas suas convicções, e sempre prometeu a Belinha que cuidaria dela até ao seu último dia e esse objetivo ele teria que cumprir. Ele também nunca teve uma vida fácil, iniciou o seu trabalho muito cedo, já tinha feito tantas coisas na vida, tinha ajudado muito a sua família nas carências....entretanto apaixonou-se por Belinha, uma mulher mais velha já com um filho duma relação anterior e a sua vida foi sempre vivida com um dia de cada vez, porque ele aprendeu que não adiantava preocupar-se antes do tempo. Joana sempre foi mais menina de seu pai e sempre teve ciúmes da sua mãe, que sempre foi uma romântica incurável, de lágrima fácil, mas o seu filho mais velho e a frustração da sua vida profissional, tinham arrasado o seu sistema nervoso; por isso a pouco e pouco a família foi percebendo que Belinha se ia esquecendo de pormenores, depois de datas importantes, de recados e a seguir chorava muito! Entrou em depressão, desculpavam-na pela depressão, depois tinha momentos agressivos até que um dia Mário ouviu do seu médico aquilo que esperava nunca ouvir " A sua mulher tem Alzheimer"......Mário chorou e ficou arrasado durante vários dias, porque se sentia novo e válido e toda a sua vida de casado com aquela mulher que ele adorava, ele ouviu de sua boca: "Mário, meu querido, eu vou morrer nova, eu sei disso!" Ele nunca ligou a estes comentários, mas agora constatou que ela acertou e tinha razão!! O que fazer nestes momentos em que parece que o mundo desabou na nossa cabeça? Como nos levantamos depois de um tombo na nossa vida? Como partilhamos a dor que nos toca no canto mais fundo do nosso corpo, que parece que nos consome a alma? Por muita esperança e confiança que Mário tivesse na medicina, ele sabia que o seu futuro seria sempre a deteriorar.

Num dos momentos de lucidez de Belinha, ela confessou-lhe que a vida não acabava ali e que estava preparada para partir no momento que os anjos a quisessem levar, porque apesar de não ter deixado nenhuma obra prima que ele ou os filhos se pudessem orgulhar, sempre o tinha amado e respeitado e tinha dado o melhor de si! Não sabia se o melhor de si tinha sido suficiente, mas tinha sido aquilo que tinha conseguido......pediu-lhe perdão por discussões que tinham tido e naquele momento verificava que tinham sido discussões sem sentido. Afinal a vida é muito mais do que mesquinhices e lutas conjugais sem sentido! Disse-lhe também que se soubesse que a sua intuição não falharia, tinha aproveitado mais os momentos a dois e a quatro, com os seus ricos filhos em vez de perder noites a trabalhar para agradar ao seu chefe! Deixou-se envolver demasiado em problemas e acabou por danificar o seu pequeno cérebro.........por isso fazia-lhe um pedido especial! Que ele a deixasse finalizar os seus dias numa casa perto do mar, mas de repouso, porque não queria perder a dignidade e saber que o trataria mal.......ele não merecia, muito menos a historia de amor deles ou os seus filhos assistirem a uma decadência que ela considerava não ser ela, mas o seu corpo a lutar contra uma doença incurável apenas, e preferia ser recordada pela sua família com toda a sua energia e alegria, que teve noutros tempos...........Mário respeitou, levou-a em segredo, depois dela se despedir de seus filhos, deixou-a nesse mundo de repouso e guardou para si todas as recordações e momentos a dois, limitou-se a esperar um telefonema final que chegou passados quarenta e sete dias do seu internamento.........mas ele ao contrário do que pensava, sorriu e disse: "Até breve minha querida".



FIM

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A luta de Nuno.....


Música a acompanhar o conto: Adele

Mais uma noite e ouviu de novo o bater da porta muito devagarinho, sentiu um vazio no estômago, uma dor e uma angustia que o deixava acordado várias horas à espera que ela voltasse. No dia seguinte de manhã ela acordava-o cheio de mimos e carinhos e apesar de sentir uma enorme vontade de lhe perguntar: "Onde foste ontem mãe?" Ele sabia que não o devia fazer, porque ela estava tão triste quanto ele. Ela com sentimento de culpa e ele com a agonia da solidão que tinha sentido e sabia que não podia contar a ninguém, porque apesar da solidão noturna que sentia quase todos os dias, nada como estar próximo de sua mãe! Para o bem e para o mal foi aquela que o destino lhe deu e não havia lar ou instituição que substituísse aquele sorriso de sua mãe.....Todos os dias ficava com a sua irmã mais nova e sabia que a sua mãe ia fazer aquilo que ninguém se orgulha de fazer, mas que era a única forma de ganhar algum dinheiro pois o rendimento mínimo que lhe tinha sido atribuído não chegava nem para pagar a renda da casa, quanto mais a alimentação das suas crias e as contas de casa.

Nuno sofria pela mãe e pela irmã que parece que pressentia a ausência da mãe já que mal ela saia, acordava e chorava, ele deitava-se ao seu lado e assim passavam noites e noites seguidas, agarrados à espera que a mãe voltasse.....normalmente ela voltava de madrugada, antes da hora de levantar! Nuno sabia porque ela andava sempre com os olhos lacrimosos, sabia que era de sentimento de culpa e de revolta, ele no fundo também sabia que ela era maltratada na rua por homens indispostos, frustrados que só por terem dinheiro achavam que podiam fazer do corpo de sua mãe o que bem entendessem....


Todos os dias de manhã quando se olhava ao espelho e apesar de só conseguir pensar com um pacote de batatas fritas na mão, doces ou gomas, jurava a si mesmo que um dia ia ajudar a sua mãe e ser um homem crescido e assim ela não precisaria de chegar todos os dias com aquele homem todo tatuado que lhe dava algumas notas dentro daquele carro encarnado e ainda lhe puxava o cabelo antes dela sair do carro......que revolta ele sentia, mas nada podia fazer, podia ser pior ainda se o descobrissem.

Como se não bastasse sempre que chegava à escola era a mesma coisa, era o "Pobre" o "Gordo" e o "Feio"; nem sabia o que era ter um amigo, nem podia desabafar com ninguém aquilo que o atormentava, até a professora o chateava porque era raro fazer os trabalhos. Se ela soubesse o que ele sentia, percebia porque é que não tinha nem vontade nem paciência de os fazer......só queria que a vida mudasse e de preferência pudesse ajudar a sua mãe....

"Que cara tão doce e serena tem aquele fulano moreno, não achas Helena?" - Perguntava Sofia à sua amiga. Sofia que já o tinha observado desde o inicio da apresentação, achava-o diferente, muito atraente, seguro e com uma maneira inteligente de expor as suas ideias, afinal o tema não era para qualquer um " Como sobreviver em caso de violência doméstica" a forma doce como ele falava das mulheres era algo de especial, contagiante e atrativo. No final da conferência, aproximou-se do responsável pela organização e pediu para ser apresentada ao orador, ao Dr. Nuno Dias!

Tinham passado trinta anos e Nuno cumpriu aquilo que disse ao espelho durante muitos e longos anos, seria um homem que com certeza orgulharia a sua mãe, caso fosse viva, pois morreu era ele adolescente muito doente, nunca soube bem com que doença.....mas hoje sabe-o muito bem, pois é médico, e tenta ajudar mulheres a lutarem e saberem como se defender num período difícil de sua vida. E já que não o pode fazer por sua mãe, tenta fazê-lo por outras mulheres e assim sente que tem sempre presente o espirito e o cheiro de sua mãe........



FIM

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Rotina interrompida de Sara......


Musica do dia: Alphaville

O despertador tocava de novo, parece que tinha dormido 5 minutos, era uma desmotivação só de pensar que tinha que acordar, levantar-se, cuidar dos filhos e apanhar os transportes para um sitio tão desmotivante.......era uma terça-feira de novembro, chovia torrencialmente lá fora e eram 6 horas da manhã, quando começava toda a sua rotina matinal, preparar lanches, tomar banho, deixar os miúdos em escolas diferentes e apanhar 3 transportes para o seu local de trabalho.....tudo isto para chegar ás 9 horas da manhã e assim conseguia sair ás 18 horas. Sara questionava-se diariamente o que tinha acontecido aos seus sonhos, afinal sempre imaginou ser uma professora universitária de sucesso e não passou duma administrativa cheia de sonhos e frustrações à mercê dum chefe mal comportado, abusivo da sua condição de mulher bonita, culta e interessante mas sem qualquer alternativa. Todos os dias se questionava, sobre o que fazer e como resolver a sua condição precária profissional, mas não podia fazer nada, afinal era o ganha pão de 3 pessoas no seu apartamento deixado pelo seu segundo marido, ao menos isso........depois de tudo o que a fez passar deixou-lhe um apartamento livre de prestações, senão como seria e como viveria ela?

Sara, era uma mulher sozinha com dois filhos ao seu cuidado, ainda por cima de pais diferentes, infelizmente a vida não foi sorridente com ela na parte amorosa. O primeiro deixou-lhe um filho lindo louro com os olhos verdes, ela até se questionava como é que a aberração do seu primeiro marido lhe tinha dado um filho tão doce tão bonito e tão bom aluno....um verdadeiro companheiro. O seu filho mais pequeno era filho dum diretor duma empresa, um verdadeiro executivo de sucesso, seu segundo marido, cheio de virtudes mas que tinha emigrado e a relação não conseguiu sobreviver, afinal ele arranjou uma segunda família e este seu filho era uma dor de cabeça, mal comportado, violento na escola, parecia mal amado e quanto mais ela o aconchegava a si mais rebelde ele se tornava, nunca aceitou a separação dos pais.

Nessa manhã chega ao escritório, curiosamente antes da hora e repara que a aporta do seu chefe estava ligeiramente aberta, algo de estranho já que estava sempre fechada a sete chaves, como se guardassem ouro naquelas quatro paredes........Sara resolve investigar e aproxima-se da porta ligeiramente aberta e bate com muito cuidado, não obtém qualquer resposta e de repente foi como se o mundo acabasse ali........ao abrir ligeiramente a porta vê o seu chefe caído em cima da secretária, com uma pistola na mão e uma poça de sangue enorme na secretária na cadeira, no chão nas paredes e em toda a documentação.........ele estava morto! Não havia duvidas........Sara gritou que nem uma louca, apesar de ser um chefe ordinário, sempre a babar-se para cima dela e dos seus elegantes decotes, ninguém merece um fim trágico destes! O que o levou a tomar aquela atitude? Porque o fez? Será que o fez? Ou será que alguém o fez por ele?

Não há descrição o que é ver alguém morto à nossa frente, a cor da pele, a temperatura gélida do corpo, o ambiente e energia triste que se sente naquela proximidade.........Sara não dormiu noites e noites seguidas, porque aquela imagem não lhe saia da cabeça, uma imagem fria e triste para qualquer ser humano acabar os seus dias......

Após meses de investigação da policia judiciária, e muitos interrogatórios, chegou o veredicto final, o chefe mal comportado de Sara além de director da empresa tinha ligações com a máfia de leste e uma rede de prostituição que levava mulheres para o Brasil. Como é possível trabalhar com alguém na gestão duma empresa tão normal e natural, descobrirmos depois que as pessoas que nos rodeiam são tão obscuras, cinzentas e desprovidas de valores? Que arrepio sentiu Sara, quando lhe foi transmitido que a empresa de exportação de produtos nacionais ia ser encerrada para indeminizações ao Estado........o que ia ela fazer para cuidar da sua família com uma crise como a que vivemos atualmente. Só ia viver com o ordenado mínimo?.....o que ia ela fazer para alimentar as suas crianças e dar-lhes educação???


segunda-feira, 26 de março de 2012

Conto sobre Joana........

Musica do dia para o conto: Amor Electro

Joana era uma mulher independente, casada, excelente mãe, excelente filha e trabalhava numa empresa com uma função que não a completava psicologicamente, sempre desejou muito mais para si, mas o seu curso não era nem de perto nem de longe uma saída profissional, como milhares de Joanas pelo país....a sua vida era rotineira, acabava por ser uma verdadeira canseira! Os dias eram quase sempre iguais, aturar um chefe que nada lhe dizia, cumprir o seu horário profissional, chegar a casa e iniciar as suas tarefas como mãe, como dona de casa e como mulher.....não era pessoa de se arranjar, nem nunca pensou muito nisso, até achava uma futilidade, ela era muito mais de aventura e cultura mas com as dificuldades financeiras os seus interesses ficavam sempre para último, começou então a rotina e a dada altura olhou para a sua vida e precisava de mais.....

Inexplicavelmente existia um colega no seu escritório, que há uns tempos para cá até lhe dava mais atenção, era giro e deixava-a desconfortável, afinal era a única coisa divertida ao longo do seu dia de trabalho.....era vê-lo passar! Que corpo, que pernas, que rabo.........que aspecto fantástico..........passaram muitos meses e a dada altura Joana estava diferente, parecia outra mulher! Arranjava-se mais, sentia-se muito mais mulher, mais forte mais bonita mais amada tudo estava melhor, tudo se tolerava muito melhor.........excepto em casa. Amava o seu marido, amava a sua função de mãe, mas sentia um peso enorme na sua vida, na sua consciência, nos seus valores, afinal quem era ela??? Se por um lado toda a gente lhe dizia que estava muito melhor, até o marido, porque seria que se sentia tão mal consigo própria? Porque será que tinha dias tão tristes que olhava para casa e se perguntava a si mesma, se merecia aquela família, em quem seria que se tinha tornado?

Se por um lado se sentia muito mais segura, por outro tinha dias que se culpava brutalmente e se martirizava e só perguntava a si própria, quando é que isto acaba?? Afinal Joana tinha-se envolvido com o seu colega e era uma relação, se é que podemos chamar relação sem qualquer compromisso, sem qualquer futuro.........mas nenhum dos dois conseguia largar o outro! Seria apenas físico? Mas já dura à tanto tempo.....como pode ser só físico? Joana não podia pensar muito nisso, afinal chegava a casa e cumpria tal e qual as suas obrigações de mulher, nunca houve qualquer desconfiança, será que o marido fazia o mesmo? Era uma forma de não se culpabilizar tanto......

O seu colega não exigia nada, afinal ele também era casado e pai......que tipo de homem seria ele em casa? Que mulher teria ele para nem desconfiar que ele tinha outra pessoa?? Será que ela sabia??

Joana tinha muitas questões sobre ele, sobre a família dele..........mas nunca lhe perguntou nada, sabem porquê? Porque a seguir seria ele que lhe iria perguntar e ali não havia intimidade "emocional" havia apenas o prazer carnal..........e garantidamente que lhe fazia muito bem ao corpo e à mente, ela não queria mais que isso, sabia que nunca iria funcionar, até porque era muito mais velha que ele........mas na vida não podemos ter o bom de dois mundos! Ela sabia que um dia se ia descobrir, ou ela própria iria rebentar.....nada na vida é eterno, tudo é um ciclo com principio meio e fim! E se por um lado muito de bom lhe dava este "caso" muitas preocupações e culpas sentia em cada dia que se envolvia!

Todos nós precisamos de sair da rotina, e não somos ninguém para criticar o próximo, até porque não sabemos o dia de amanhã, mas por vezes quando nos metemos nas situações, temos que pensar como vamos sair delas sem magoar o próximo e acima de tudo nós mesmos.........se por um lado é fácil para um virar as costas, nem todos somos iguais! E não é fácil para todos iniciar a vida do zero.......ás vezes a vida prega-nos partidas que nem nós sabemos como sair delas, inclusive sentimentalmente........