"Não te conheço nem sei o que fazes na minha casa.....porque estás aqui? Quem és tu?" Minha querida Belinha não fiques assim que eu gosto muito de ti e não sei o que fazia à minha vida sem ti, por favor não me fales assim"!! Este é o cenário diário que Mário ouvia a todo o momento.........passados 15 minutos: "Mário porque ainda não tomamos o pequeno almoço?"........."Belinha, minha querida vamos hoje tomar na varanda, queres? " E aproveitou aqueles minutos para lhe dar um miminho e uma flor que já tinha preparado, uma rosa muito vermelha, as suas preferidas.....
Joana dizia todos os dias a seu pai que ele não ia aguentar aquela tristeza diária de todos os dias ser maltratado e mal amado, mas Mário era um homem forte e acreditava acima de tudo nas suas convicções, e sempre prometeu a Belinha que cuidaria dela até ao seu último dia e esse objetivo ele teria que cumprir. Ele também nunca teve uma vida fácil, iniciou o seu trabalho muito cedo, já tinha feito tantas coisas na vida, tinha ajudado muito a sua família nas carências....entretanto apaixonou-se por Belinha, uma mulher mais velha já com um filho duma relação anterior e a sua vida foi sempre vivida com um dia de cada vez, porque ele aprendeu que não adiantava preocupar-se antes do tempo. Joana sempre foi mais menina de seu pai e sempre teve ciúmes da sua mãe, que sempre foi uma romântica incurável, de lágrima fácil, mas o seu filho mais velho e a frustração da sua vida profissional, tinham arrasado o seu sistema nervoso; por isso a pouco e pouco a família foi percebendo que Belinha se ia esquecendo de pormenores, depois de datas importantes, de recados e a seguir chorava muito! Entrou em depressão, desculpavam-na pela depressão, depois tinha momentos agressivos até que um dia Mário ouviu do seu médico aquilo que esperava nunca ouvir " A sua mulher tem Alzheimer"......Mário chorou e ficou arrasado durante vários dias, porque se sentia novo e válido e toda a sua vida de casado com aquela mulher que ele adorava, ele ouviu de sua boca: "Mário, meu querido, eu vou morrer nova, eu sei disso!" Ele nunca ligou a estes comentários, mas agora constatou que ela acertou e tinha razão!! O que fazer nestes momentos em que parece que o mundo desabou na nossa cabeça? Como nos levantamos depois de um tombo na nossa vida? Como partilhamos a dor que nos toca no canto mais fundo do nosso corpo, que parece que nos consome a alma? Por muita esperança e confiança que Mário tivesse na medicina, ele sabia que o seu futuro seria sempre a deteriorar.
Num dos momentos de lucidez de Belinha, ela confessou-lhe que a vida não acabava ali e que estava preparada para partir no momento que os anjos a quisessem levar, porque apesar de não ter deixado nenhuma obra prima que ele ou os filhos se pudessem orgulhar, sempre o tinha amado e respeitado e tinha dado o melhor de si! Não sabia se o melhor de si tinha sido suficiente, mas tinha sido aquilo que tinha conseguido......pediu-lhe perdão por discussões que tinham tido e naquele momento verificava que tinham sido discussões sem sentido. Afinal a vida é muito mais do que mesquinhices e lutas conjugais sem sentido! Disse-lhe também que se soubesse que a sua intuição não falharia, tinha aproveitado mais os momentos a dois e a quatro, com os seus ricos filhos em vez de perder noites a trabalhar para agradar ao seu chefe! Deixou-se envolver demasiado em problemas e acabou por danificar o seu pequeno cérebro.........por isso fazia-lhe um pedido especial! Que ele a deixasse finalizar os seus dias numa casa perto do mar, mas de repouso, porque não queria perder a dignidade e saber que o trataria mal.......ele não merecia, muito menos a historia de amor deles ou os seus filhos assistirem a uma decadência que ela considerava não ser ela, mas o seu corpo a lutar contra uma doença incurável apenas, e preferia ser recordada pela sua família com toda a sua energia e alegria, que teve noutros tempos...........Mário respeitou, levou-a em segredo, depois dela se despedir de seus filhos, deixou-a nesse mundo de repouso e guardou para si todas as recordações e momentos a dois, limitou-se a esperar um telefonema final que chegou passados quarenta e sete dias do seu internamento.........mas ele ao contrário do que pensava, sorriu e disse: "Até breve minha querida".
FIM
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