segunda-feira, 21 de maio de 2012

Lucrécia embrulhada nas suas memórias......


Musica do dia: Lisa Stansfield

Aquele aperto chegava de novo e não sabia como lidar com ele, o médico já lhe tinha dito para não se preocupar que estava medicada e só precisaria de descanso e de companhia. Mas a companhia era algo que ela só conhecia através do seu "Tareco" e da sua companheira "Chica", os dois gatos europeus comuns, que enchiam a sua casa. Não havia familiar que a procurasse à anos, nem sabia se ainda tinha família, porque essa história dos telemóveis não era com ela, as suas cataratas e os seus oitenta e dois anos já não permitiam perceber como contactar a não ser com aqueles telefones que tocam bem alto e estão agarrados a parede, mas passavam-se dias ou talvez semanas que ele não tocava a não ser algum vendedor para dizer umas coisas esquisitas que ela não fazia ideia do que falavam aqueles malandros....

Gostava de se sentar na sua cadeira debaixo do alpendre da entrada a ouvir os passarinhos do exterior, com o Tareco e a Chica ao seu colo, Lucrécia achava que qualquer dia se esquecia do que era falar, porque só o fazia uma vez por semana quando as auxiliares dos serviços da autarquia lá passavam e deixavam alguns bens para ela cozinhar. Uma coisa ela tinha a certeza, não seria capa dum qualquer jornal morta à meses ou anos sem ninguém saber dela, afinal tinha a visita da autarquia..........Estava sol e aquecia os seus pés e o seu espirito viajou, "Estava uma sala cheia de povo que gritava pelo seu nome, como se de uma Deusa se tratasse, toda ela eram brilhantes cintilantes, homens que lhe pegavam ao colo e ela cantava e representava algo que infelizmente não conseguiu representar no seu país por causa da censura, era tão feliz......vivia duma forma muito criticada pela família, mas conhecia pessoas tão importantes como Charles Trenet, Charles Aznavour, Lire Renauou, Roger Pierre e Jean-Marc Thibault,... entre tantos outros. Até o próprio Elvis Presley, ela teve o privilégio de conhecer porque ele sempre que vinha a Paris não dispensava uma ida ao "Moulin Rouge". Ela namorou, fumou, conheceu homens lindos, inteligentes, ricos, sonhou e viveu tudo o que tinha direito, tudo aquilo que a família não aprovava na altura" .

Seu pai era um militar na altura extremamente ditador que achava que ela tinha que casar com alguém da sua terra e apenas aprender a ler e a cozinhar, porque mulher era mesmo para ter filhos, dar prazer ao homem sempre que solicitada e criar os filhos que Deus lhe quisesse dar...........as suas irmãs viveram dessa forma, mas Lucrécia a 2ª de 5 filhas era diferente, sonhava com algo que nunca tinha visto, apenas as peças de teatro da sua terra feitas por amadores, até que um dia a sua vida mudou e ela apaixonou-se por um homem francês que veio a Portugal visitar a sua família, numa aldeia próximo da sua, mas sendo ele homem e não rapazinho como o pai lhe tinha ordenado, não teve outro remedio senão fugir com ele para França, o problema é que ele já era casado, apesar de muito bem relacionado no meio politico e muito apaixonado por ela. Lucrécia chegou a Paris sem conhecer a língua, fugida da família, sabia que não podia voltar a Portugal e o homem pelo qual ela já se tinha entregue totalmente nos seus braços, prometeu que não a ia abandonar e colocou-a no “Moulin Rouge” como empregada de limpeza; afinal ele até conhecia o encarregado do bar e não foi nada complicado. Também não foi difícil para Lucrécia, que era muito atrevida e comunicativa, com os seus olhos verdes, sardas e cabelo alaranjado, começar a brilhar no meio das outras e numa noite que faltou uma das bailarinas, colocaram Lucrécia para substituir............ela que sabia tudo de cor, porque passava o tempo a observar os ensaios, aproveitou essa oportunidade e tornou-se uma das atrações principais do “Moulin Rouge”!!

Os anos passaram, nunca foi de pensar muito em dinheiro, viveu, aproveitou e entregou-se a tudo o que lhe dava prazer só nunca pensou foi que as rugas iam aparecer e outras divas a substituiriam, e teve que voltar! Não suportava ficar em Paris e ver a sua decadência com a idade..........voltou ás suas raízes, mas nunca mais procurou a sua família, nem conhecia mais ninguém, nem queria, tinha pena de não ter tido filhos, ou de não ter tido coragem para procurar um primo ou um sobrinho, mas nunca teve essa coragem e nunca ninguém soube a Diva que ali estava atualmente, muito menos a autarquia!

"D.Lucrécia....D.Lucrécia, chegou a sua encomenda para a próxima semana"...... mas Lucrécia não voltou a acordar, adormeceu na sua cadeira de baloiço numa manhã cheia de sol com as suas lindas memórias sobre a sua vida e ali ficou entregue aos anjos que a levaram para outro mundo onde ela pudesse sorrir de novo e entregar-se aquilo que ela gostaria, ao convívio e alegria.........

Sem comentários:

Enviar um comentário